6 de out. de 2011

Da Cor dos Dias


segunda
cinza 

terça
ocre

quarta
vermelho

quinta
violeta

sexta
salmão

se vens no sábado
amarelo

meu domingo
é azul





02.11.2008

22 de ago. de 2011

Celestiais


furtou um naco da lua
em fuga
num caco de estrela pisou 
encantou-se

28 de jul. de 2011

Memórias Suburbanas

subia e descia ladeiras
andava nos trens da Central

frequentava as praias
da Barra, do Recreio
e Ilha do governador

de ônibus, ia e vinha
mãos dadas com quem me levava
Cascadura, Madureira, Méier
Piedade, Abolição, Pilares

esses bairros me são familiares
ficam na Zona Norte
pra lá do túnel
avesso da cidade maravilhosa

os meninos da minha rua soltavam pipa
jogavam bolinhas-de-gude e finca
as meninas pulavam corda, jogavam amarelinha
ioiô e bambolê eram brinquedos da moda

II

pelo rádio, um certo baiano
dizia que o sol nas bancas de revista
o enchia de alegria e preguiça

uma história pra contar
de um mundo tão distante"

outro baiano
de nome igual ao da tia Gil
mandava aquele abraço pro Realengo
e toda torcida do Flamengo

anunciva que o Expresso 222
partia direito de Bonsucesso
pra depois do ano dois mil

ouvia-se também um carioca
que era de Holanda
cantando Carolina

"nos seus olhos fundos"
guardava tanta dor
"a dor de todo este mundo"

os festivais eram da canção
e o músico baiano
de cabelos encaracolados

já outro, capixaba
depois virou rei

tinha um calhambeque que fazia “bi bi”
e se dizia um negro gato de arrepiar
um lobo-mau, ele era o tal

III

naquele tempo, descobri
morava num país tropical
abençoado por Deus

do alto do morro
de braços abertos
vigiava a cidade
cheia de encantos mil

como a nega chamada Tereza
igualzinha a Zeni
quando limpava o alto da geladeira
onde havia um pingüim

depois que o velho guerreiro
balançava a pança, buzinava a moça
e dava ordens no terreiro
assistia ao Topo-Gigio cantando

VI

em fevereiro, tinha carnaval
confete, serpentina, lança-perfume
pierrot e colômbina

em junho, os balões subiam
carregados de desejos
ao caírem, traziam mistérios
quem sabe Deus

eram noites de São João
ao pé da fogueira
comia batata-doce e brilhava

vestida de caipira
lábios vermelhos
pintados de batom

em setembro, ganhava doces
de São Cosme e São Damião
adorava maria-mole e doce-de-abóbora
em forma de coração

V

na minha terra
mexerica era tangerina
mandioca, aipim

o feijão era preto
o arroz, brejeiro
e o doce, pudim

o português da quitanda, além de batatas
vendia pão chamado bisnaga
e leite em garrafa

na rua, havia feira
e no fim do dia
só havia sujeira

VI

falava a língua do “P”
tomava grapete-repete
além de biscoito de nata
minha tia fazia pavê

detestava gemada
ovomaltine e gualhada
adorava ovo frito
com bife e purê

fazia bolinhas de sabão
e passava Karo no pão
lia o gibi do Bolinha
e tomava sorvete Kibon

o maiô era duas-peças
a cueca, samba-canção
o leite, Glória
e a manteiga, Claybom

a tv, preto e branco
o som, vitrola
de conga eu ia pra escola

os brinquedos, Estrela
a geléia, de mocotó
a confeitaria, Colombo

o perfume
alfazema
e o arco
diadema

o dente caía
banhado de ouro
enfeitava o pescoço

a Barbi era Susi, eu tinha a Pupi
tão pequenininha
na palma da mão se escondia

igual ao biquíni de bolinha amarelinha
mal cabia na minha irmã
Ana Maria

VII

nasci na Freguesia do Irajá
morei em Rocha Miranda
minha mãe trabalhou no Catete
meu pai foi servente, papiloscopista
depois virou crente

tinha uma avó Santa e outra Nenzinha
um avô Gonçalo, morto de barriga d’água
e outro, Jorge, medalheiro
filho único de pai estrangeiro

minhas tias eram prendadas
sabiam cozinhar e costurar
minha mãe, aplicada

além de estudar e trabalhar
sabia bordar, crochetear 
e se pintar

meu tio 
tinha um “fuca”
meu primo 
um violão

minha irmã 
amava os Beattles
e os Rollings Stones

minha avó Santa
reumatismo 
e arteriosclerose

minha prima, namoradeira
ia ao Cine Bruni, aos bailes do clube
vestida de tubinho e meia-arrastão

o pai dela, meu outro tio
era descendente de alemão
falava igual ao Barney
do desenho da televisão

o irmão dela, meu outro primo
tinha autorama e patinete
e fazia aviõezinhos com perfeição

VIII


nas tardes modorrentas
o radinho de pilha chiava
e o meu tio, vascaíno
o juiz xingava

os dias eram felizes
aos domingos, comíamos lasanha
em dias de Paixão, bacalhoada
no Natal, rabanadas

um dia fiquei doente
tive tosse-de-cachorro
tomei xarope e chorei

minha mãe partira
havia de trabalhar numa cidade nova
no Planalto Central

bem longe dali
do subúrbio,dos morros
do mar e de mim

1997



IX

tempos depois
eu e minha irmã
de malas prontas
embarcamos no ônibus

Itapemirim era a viação
Brasília, o destino no letreiro selado
e o Rio, ali, no terminal
aos poucos foi sendo deixado

da janela, a cidade agora emoldurada  
e, nela refletida, uma garotinha a lhe acenar
e a me dizer adeus

via a cidade
a cidade não me via
ocupada com sua gente
de volta pra casa

enquanto dela partia
ao som das lojas cerrando as portas
a cidade nada sabia
surda, a mim perdia

luzes corriam o céu e sumiam
como somem os cometas
levando consigo o meu passado-menino
pelos ares densos da terra que o mar encontra

os dias suados
a areia da praia no tapete do carro
o meu corpo salgado

recortes da cidade descolavam da retina
sugados pelo buraco negro
perdiam-se nos becos da Via-Láctea
e em série o Rio apagava

um caledoscópio sem luz nem cor
teve forma em seu lugar
colado em minha memória
um mosaico branco foi

adormeci
rumo à solidão das terras altas
aonde vim acordar, mais perto do sol
cem mil metros acima do mar


2011

8 de fev. de 2011

Fotograma

no que o olho represa
minh'alma revela
nesse assim revelado
meu coração alado

Translação

quando a lua cheia
se deita pr’sol
a manhã tem saudades
da noite que deixou

Pausa

um grilo canta
eu escrevo

imersos na noite

eu aqui
ele lá fora

eu o escuto
ele me ignora

Desconhecido

o que jaz em mim
que não posso velar
por não saber

o que jaz em mim
que se impõe
e se faz notar

se o que jaz
é parte do que em mim
se fez ocultar




15.08.02

Infância Perdida

furou os olhos
queimou os cabelos
arrancou braços e pernas
enterrou no fundo da memória
era uma boneca

Manias de Maria

virgem maria
ave maria
santa maria

lá vai um séquito de marias
pagando promessas
espiando pecados

carregam chagas e beleza
tudo diz o nome
vêde!

maria da penha
maria das dores
maria do socorro

maria da cruz
maria do rosário
maria de jesus

maria dos santos
maria da paz
maria dos anjos

maria das graças
maria da glória
maria aparecida

maria da encarnação
maria de deus
maria da consolação

maria põe beleza no nome
até dos homens
maria josé, maria joão

que graça tem sem maria
e maria, sem graça
bem vai co'as outras





14.09.99

2 de fev. de 2011

Gênesis

o primeiro dia
a primeira noite
do primeiro dia

a primeira onda
o primeiro som
da primeira onda

o primeiro oceano
a primeira gota
do primeiro oceano

o primeiro fogo
a primeira faísca
do primeiro fogo

o primeiro vento
a primeira brisa
do primeiro vento

o primeiro fruto
a primeira semente
do primeiro fruto

o primeiro botão
a primeira flor
do primeiro botão

o primeiro espinho
a primeira rosa
do primeiro espinho

o primeiro espanto
o primeiro grito
do primeiro espanto

a primeiro dor
o primeiro pranto
da primeira dor

a primeira voz
o primeiro canto
da primeira voz

a primeira música
a primeira nota
da primeira música

a primeira dança
o primeiro passo
da primeira dança

a primeira palavra
a primeira letra
da primeira palavra

o primeiro verso
o primeiro verbo
do primeiro verso

o primeiro passo
a primeira alegria
do primeiro passo

o primeiro toque
o primeiro arrepio
do primeiro toque

o primeiro desejo
o primeiro gozo
do primeiro desejo

o primeiro beijo
a primeira boca
do primeiro beijo

a primeira noite
a primeira lua
da primeira noite

o primeiro sono
o primeiro sonho
do primeiro sono


como foi?




07.01.2011



Ensaios


beirei fachadas
dei para naturezas mortas
fiz jejum de palavras
compus silêncios

nesse lugar algum
entre a lagarta e a borboleta
velei papéis em branco
bandeirinhas desbotaram

recolhi os passos
migrei para outras estações
encontrei destinos
prejuízos somei

estrangeira de mim eu fui
contei-me mentiras
não tive sacramentos
nem perdão

II

chego à arena sem fôlego
tudo em volta é espelho
finjo-me sã

arranjo os cabelos
passo o batom
ajeito o sutiã

alinho o vestido
bato a poeira
desertos em mim

fora os trilhos
e seus dois sentidos
talvez um trem a passar

uma cidade próxima
um vilarejo
talvez um lar

III

prossigo no meu encalço
eu e minha sombra a me precisar

enquanto não me enlaça a morte 
o destino, comigo, põe-se a dançar

crescem meus cabelos 
como desejos de além-mar

Acordam os meus olhos
são margaridas que chovem

1 de fev. de 2011

Petit à Petit

no lenço colorido
debaixo do travesseiro
nas mechas do cabelo

entre os seios

nas dobras do vestido
nos sonhos, teu cheiro
guardei num frasco

Prelúdio & Poslúdio

quando o amor se faz urgente
no jardim do tempo
nasce a rosa dos ventos
e leva saudade bem longe dali

quando depois do amor se faz o breu
Choppin encontra Dalli
a pintar tristezas assim
eu sem você, você sem mim

3 de jan. de 2011

Rua Esperança

passou um
passou dois
passou três

só não passou o meu amor

dei bom dia
boa tarde
boa noite
até manhã

só não dei com meu amor

o tempo passou naquela rua
eu também passei
quem sabe o meu amor

dentro de um sobretudo
de óculos escuros
com uma grande dor
a dor do desamor




22/08/2002

Vovô não vê mais a uva


quando caiu o acento de estrela

um brinquedo se quebrou
uma luz no céu se apagou

quando caiu o acento de flor

uma rosa murchou
um coração se espetou

quando caiu o acento de cor

o azul do céu desbotou
uma tempestade desabou

quando caiu o acento de bolo

sua massa desandou
e parabéns não se cantou

estrela, flor, bolo e cor se enfeitavam 
com o chapeuzinho do vovô





12/02/2005

Para alguém reclamar

palavras tramam versos
o engenho é febril
delira o poeta
o poema tecido
sem destino
jaz em posta-restante

27 de dez. de 2010

Amor Bandido

emergiram do asfalto
à luz dos semáforos
sob o sol do meio-dia

longe dos bancos
no perímetro urbano
cometeram o crime ideal

no motel paradise
mataram o desejo
subverteram a moral

era um dia útil
deu no jornal
o horário, comercial

A Vida Acaba

a vida acaba quando menos se espera
e quando se espera

a vida acaba sem dar explicação
sem despedida

a vida acaba breve
ou demora uma vida

a vida acaba, é fato
é real e também mistério

a vida acaba
está escrito, está falado

a vida acaba
e o seu fim é sempre fim

a vida acaba
é óbvio e não é

a vida acaba,simplesmente
nem tanto assim

a vida acaba
eu sei, eu vi

Poema em Ão

há pulsão e negação
paixão e rebelião
há o sim e há o não
assim e senão

as cordas do violão
a ilusão das rosas 
o verão das chuvas
as cêrcas acerca do sertão

há o arrastão, o filho temporão
o sótão e o porão
o alçapão, o pão, o facão
há pipocas e doce de algodão

a morte lacrada no caixão
o coveiro e sua missão
há passos na escuridão
alguém na contra-mão

há a boca, o boqueirão
e as esporas do alazão
um trem partindo da estação
e as negras notas da canção

há panela de pressão
o caos, a explosão
o beijo à beira do portão
há a rúcula e o agrião

o pecado e o sacristão
a hóstia e a oração
há novela com traição
bicho-papão, pavão e tubarão

há a poção e o caldeirão
a dor e a convulsão
o desejo da morte
e a vontade da criação

A Dor e a Rosa

a dor no peito
a rosa no trilho

a dor é minha
a rosa, do amor perdido

a dor no trilho
a rosa no peito

a dor da rosa
meu peito partido